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Ouvindo as ruas


Já cansei de ouvir que "quem mora na rua, está lá porque quer". Semana passada, acompanhei um movimento social que cuida de moradores de rua. O objetivo maior deles é ajudar as pessoas a voltarem para suas casas ou encontrarem uma. Tem gente que diz que quando você é solidário com quem vive na rua, você está colaborando para que essa pessoa nunca saia da mendicância. Mas isso é preconceito de quem fala de tudo e sabe de nada.

Ser repórter me ajudou a vencer preconceitos. Ouvir o outro lado sempre me mostrou que nem tudo é como eu penso ou como alguém me disse. E ainda que haja mentirosos pelo caminho, ouvir o outro lado é sempre agregador. Foi o que fiz naquela noite de quinta e madrugada de sexta. Ouvi os moradores de rua. E ainda neste mês voltarei às esquinas do Rio para filmar as ações desse movimento social. Será parte da segunda temporada da série "É Possível".

Numa calçada perto da Igreja da Candelária, eu conheci um homem simples. Tinha graxa nas mãos e fala serena. Estava sujo e com fome. Eu mesmo dei uma quentinha de comida na mão dele. Depois, ele aceitou outra.

A idealizadora do projeto perguntou se ele gostaria de voltar para casa. Ele disse que sim. Ela prometeu pagar uma passagem de volta para Friburgo, cidade da Região Serrana do Rio. Lá, o homem disse ter uma tia que mora na roça. Ele aparentava ter quase 50 anos e não tinha como esconder a fragilidade física. A rua não faz bem a ninguém.

Por que será que alguém decide morar sob marquises? Seriam vagabundos? Gente que não quer nada da vida? Naquela madrugada, eu ouvi muitas histórias. Aquele homem franzino de Friburgo, de fala mansa e cheio de fome, disse-me o nome dele e que sua história estava na internet.

E está mesmo. Uma procura pelo nome dele leva a um link do Jornal Nacional. Aquele homem que aceitou a quentinha que ofereci falava a verdade. Só não sei, confesso, se gostei de saber. As histórias carregam emoções. E a daquele homem é pura dor.

A matéria da TV Globo é de oito anos atrás. Mostra aquele homem aos pés de uma encosta revirando barro e em busca de corpos. A reportagem era sobre as chuvas de janeiro de 2011 que arrasaram a Serra. Aquele homem é sobrevivente. Mas é também uma vítima. Perdeu a mulher, o filho, a família. Perdeu amigos. Perdeu o que tinha.

Passou dias tentando ajudar outras famílias. E foi até onde conseguiu.

Ele não conseguiu se levantar. Hoje, mora nas ruas, que, entre errantes, drogados e criminosos, abriga os que nada tem.

Se um dia uma pessoa te disser que "quem mora na rua mora porque quer", por favor, mande esse texto para ela.