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Sobre mãos dadas


Bernardo conserva um ar de “sabe tudo” desde muito novo. Só que tem apenas 18 anos e uns poucos fios, distantes e finos, no rosto. Contudo, exibe a penugem com orgulho, como se fosse barba de gente grande. Ele é quase menino, quase homem e está prestes a descobrir o amor.

Sente tanta coisa que anda aflito, sem saber direito o que fazer. Por vergonha, não toca no assunto com os pais, tem receio de expor seus medos. Achou melhor recorrer à avó, que sempre lhe deu guarida e bons conselhos.

– Então, o seu problema é uma menina? – É, vó. E ela também gosta de mim. – E o que você quer fazer? – Tô na dúvida. Se eu levar a sério, a farra acaba, né? Mas se eu não levar, perco ela. – Você vai ter que escolher, meu menino. É como na vida. Ela é uma boa garota? – É, mas não sei se o que sinto, sabe?,… se é am… amor. – Mas o amor não é um sentimento.

O garoto, confuso, arregalou os olhos. – Então é o quê? – Uma decisão. A gente sente paixão, dor de barriga, vontade de gritar. Sentimento dá e passa. Amor não é assim. – Difícil isso… – Lembra quando você e sua prima brincavam aqui na rua, aquela brincadeira de correr de mãos dadas? Vocês saíam em disparada fazendo força pros lados até que um dos dois soltava a mão e o outro caía… Sua prima, tadinha, sempre se dava mal nessas.

Bernardo riu. As palavras da avó o fizeram voltar à infância não tão distante. – Lembro, vó. Era legal. Minha prima sempre foi meio tonta. Mas o que amor tem a ver com isso? – Não fala assim dela, hein! Mas entenda: a vida a dois é como aquela brincadeira. Duas pessoas dão as mãos e, juntas, saem por aí, meu menino. Elas correm, elas vão devagar, mas seguem de mãos dadas. – Mas e se um começar a ir prum lado e outro não quiser? – Quem decide amar pode até não querer ir pro outro lado, mas continua de mão dada. Lá na frente, eles voltam, vão para o lado que o outro quer ir ou para o lado oposto. – Minha prima soltava a mão porque não aguentava correr como eu… – É, eu lembro. Você corria muito. Só que na vida de quem decide amar isso não pode existir. O amor não compete, não tem orgulho, não maltrata. Quem sente, quem vive de acordo com o que sente, Bernardo, é que faz essas coisas. Quem ama não. E não faz porque decidiu que seria assim. – Nunca pensei nisso antes… – Você pode até se irritar e fazer força pro outro lado. Mas se decidiu amar, precisa lembrar que o amor não compete. É uma decisão, meu filho. Já que decidiu por isso, não pode fazer algo incompatível, entende? E não adianta se apenas um dos dois pensar assim. Se ela achar que amor é sentimento, um dia ela vai sentir. No outro, talvez não sinta mais. – E se eu não quiser mais correr de mãos dadas com ela? Posso soltar? – Bernardo, Bernardo. Quando bate essa vontade é porque algo aconteceu antes. E quando se é jovem quase tudo é vaidade. Não vale a pena. Se não há justificava, é porque você, em algum momento, se permitiu sentir algumas coisas, coisas que não são do amor. Aí, você tem que se lembrar o que decidiu lá atrás e voltar, corrigir! Eu e seu avô estamos aí até hoje…

O rapaz pensou uns segundinhos: – Mas vocês são de outro tempo, vó! – O passar dos anos não têm a ver com isso. Amor é amor desde que o mundo é mundo. E o tempo, meu menino, faz esquecer. O ser humano é quem faz esfriar… – Pode ser… mas e se eu quiser soltar a mão? Você não respondeu.

A avó respirou fundo e continuou: – A vida é uma corrida curta e veloz. É difícil soltar a mão e não levar um tombo, você sabe bem. E, às vezes, os dois caem. Mas, veja, é até possível se soltar. É comum hoje em dia. Só que você não deve nem pensar nisso. – Por que, vó, por quê? – Porque de mãos dadas dois são um, meu menino. E quem chega inteiro ao final dessa corrida padece menos…